Pai: afasta de mim esse cálice!
Sobre o “Dia dos Pais” conforme tema aberto pela Samantha (http://www.avidaquer.com.br):
Começo parafraseando a frase bíblica e que se tornou uma canção de Gilberto Gil e Chico Buarque, na tentativa de burlar a censura da época (anos 60 – se referia à homofonia “cale-se”).
Alerto que escrevo enfatizando traços e carregando nas cores, buscando com isso transmitir melhor a ideia, mas evidentemente o leitor poderá pensar em algum momento: – isso é exagero – e poderá estar certo.Estou considerando a maioria da população brasileira, isto é, aquela que precisa contar o dinheiro do ônibus.
Não faz muito tempo o homem “ganhava” um dia de folga, após o nascimento de seu filho, para fazer o registro do nascimento no cartório. Sei que hoje não é mais assim; ele pode faltar ao trabalho 3 dias ou uma semana! (quantos faltam “esse tempo todo”?)
Nossa sociedade legal e organizada vê o homem com a função precípua e primordial de “prover” o sustento da família. Ser pai é, então, “fugir do prejuízo”, isto é, ele se volta para suprir financeiramente a família, assume essa responsabilidade e ganha, com isso, o tradicional perfil competitivo.
A mulher vivencia o filho desde a concepção e o homem, até bem pouco tempo, via seu filho no domingo (se trabalhava também aos sábados). Como desenvolver uma relação de afeto com alguém que nos “roubou” a mulher e que mal conhecemos e, principalmente, não entendemos nem sabemos como lidar? Como desenvolver uma relação de afeto se vivenciamos relações competitivas em quase todo o tempo em que estamos acordados?
Tudo mudou, sim, em parte. Os papéis de homem e mulher se aproximaram e, com isso, a mulher perde um pouco a possibilidade de viver sob a lei do afeto caso viva em um ambiente profissional, principalmente em cargos executivos. O homem, por seu lado, aprendeu que pode também desvestir seu traje “de guerra” ao chegar em casa.
Estamos ainda em transição e isso quer dizer que estamos ainda nos adaptando aos novos papéis e respectivas funções. Há, por isso, uma gama enorme de diferenças entre os casais; alguns assimilaram bastante essas mudanças e outros nem tanto. Chamo a atenção para um perfil peculiar, bastante frequente neste momento, o “menino vadio” também descrito em uma canção de Chico Buarque:
Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa, qual o quê!
Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é um operário, sai em busca do salário
Pra poder me sustentar, qual o quê!
No caminho da oficina, há um bar em cada esquina
Pra você comemorar, sei lá o quê!
Já que nos novos papéis há a equivalência (ou igualdade como ingenuamente se pensa), alguns homens tentam alcançar esse equilíbrio não apenas sendo mais afetuosos, mas evitando o papel tradicional de pai, pois este significa “provedor”. Inconscientemente? Sim, inconscientemente.



