O Poder dos Órgãos de Educação

As crianças que logo aos seis meses começam a freqüentar o berçário e seus pais, por “dó” e cuidados, entregam-na ainda dormindo à atendente da escolinha, podem transferir todo o “poder” sobre sua formação às “tias” da escolinha, professores/educadores e, por extensão, aos órgãos públicos de educação.
O recente episódio da entrega do livro paradidático “Dez na área” expõe a abrangência desse poder. Uma sindicância interna sairá em busca de culpados pela lamentável compra e entrega do livro a crianças de nove anos, porém não se discute a grandes lições que poderíamos tirar desse episódio:
1 – Transferir o poder dos pais para as “tias” ou para os órgãos públicos de educação é hoje quase uma necessidade para uma boa parte da população urbana e um grave erro de conseqüências imensuráveis, porém pressentidas. Em primeiro lugar é um erro porque a criança precisa de UM guia que oriente toda sua formação (ou dois, ou três quando muito) e, se há mais de um, é necessária uma grande sintonia e coerência nos ensinamentos, orientação, principalmente quanto ao “certo e errado”, valores, etc.. É esse guia que será o estímulo ao desenvolvimento cognitivo e gerará a estrutura da personalidade com a formação moral, ética, sensibilidade afetiva, valores, etc.. Delegar essa tarefa aos órgãos públicos dá no que tem dado nas manchetes dos jornais (nas páginas policiais).
2 – O campo político não é minha área, mas acho importante levantar algumas questões que não encontrei menção alguma nas matérias que comentaram o episódio:
a) Os órgãos de educação parecem ter em grande conta a “avaliação” de conteúdos de material didático que lhes são ofertados e no entanto essa é a tarefa de menor importância. O “conteúdo” e a “informação” é o que menos pesa na “formação” de um indivíduo. Por outro lado esse conteúdo e informação deveriam ter parâmetros milimetricamente avaliados e propostos aos autores do material didático.
b) Os órgãos de educação fixando-se nos “conteúdos” perdem a oportunidade de considerar os pontos fundamentais da formação, inclusive perdendo de vista o “como” ela ocorre, como pudemos assistir nos recentes lamentáveis episódios da distribuição de preservativos aos adolescentes do ensino público sob o argumento (hilário) de reduzir a elevada taxa de gravidez na adolescência.
c) Os órgãos de educação, infelizmente, estão sujeitos à incompetência funcional, ao descaso funcional e, não menos importante, ao aparelhamento político, podendo ser usados como “arma” de disputas eleitorais. A “incompetência” é citada por Galhardo em seu blog: “Ontem me liga o Fabio Takahashi, da Folha, e me conta que o album foi adotado pelo GOVERNO (cerca de mil exemplares) para distribuir em escolas públicas, para crianças. Ele me perguntou o que eu achava. Bem, respondi que o cara que aprovou isso certamente NÃO LEU minha HQ. Agora devem estar arrancando os cabelos. Uma mistura de incompetência do governo com ganância da Editora Via Lettera, que também deveria ter pensado duas vezes antes de botar a mão nessa grana.”.
Pode ser “apenas” incompetência; pode não ser apenas isso.
O recente caso envolvendo o criador dos quadrinhos Galhardo merece ser discutido de forma mais ampla.


