MÃE: MULHER MEDÍOCRE
We make her paint her face and dance,
(Woman Is The Nigger Of The World, John Lennon)
Abaixo o soutien! Esse era o grito de guerra nos EUA, estimulado por Betty Friedan. Na época representava a liberdade sexual feminina, que vinha apoiada pela pílula anticoncepcional. O enfoque que servia como argumento principal para o movimento social chamado de libertação feminina, que mobilizou a sociedade nas décadas de 60 e 70 do século passado, era o poder masculino que mantinha a mulher restrita intelectualmente por limitar-se aos trabalhos domésticos. Naturalmente o movimento obteve grande repercussão pelo ativismo de Betty Friedan, mas tinha um grande respaldo intelectual no restante do mundo como, por exemplo, de Simone de Bouvoir, na França. O sutiã, símbolo do movimento, sugeria uma suposta imposição masculina de uma restrição à mulher, em nome da estética e/ou do erotismo.
Isso soa agora como história, porém esse movimento alterou de forma significativa a sociedade em poucas décadas e continua a provocar mudanças.
- O erotismo ainda faz com que a mulher se submeta a condições nada desejáveis haja vista a ditadura da magreza das modelos, a publicidade de modo geral e o reflexo popular disso tudo nas canções popularescas (vide Bonde do Tigrão, Tapinha não Dói).
- O mercado de trabalho, no entanto, se abriu e a mulher hoje, apesar de ainda ser recebida com preconceito em algumas áreas, já ocupa posições de destaque. O movimento ainda está em curso!
- Na educação assistimos a presença feminina superar a masculina em grande parte das salas de aula dos cursos superiores.
- Salarialmente as mulheres ganham menos que os homens e, o que é pior, a entrada desse grande volume de mão-de-obra fez com que os salários baixassem de modo geral.
- Uma desejada equiparação de direitos surgiu equivocadamente como “igualdade” o que acarreta imensas dificuldades no relacionamento afetivo-sexual.
No cômputo geral esse movimento social foi um sucesso e chegou a hora de atentarmos para os efeitos perversos que ele agregou.
A mulher que não trabalha fora é mal vista, isto é, é considerada medíocre, da mesma forma como apregoava a palavra de ordem daquele movimento (o trabalho doméstico é medíocre). Por alguma razão, entre esses trabalhos domésticos está a criação dos filhos, que apesar da nobreza, complexidade e extrema responsabilidade, se associou à essa idéia e, por isso, nos resta ainda a sensação de que cuidar de filhos é um trabalho medíocre. Talvez possam ser identificados trabalhos menores ligados à criação dos filhos como cuidar das roupas, levar à escola e pensar na festinha de aniversário, porém criar filhos é muito mais do que isso.
Hoje sabemos que além da base genética, dos recursos externos disponíveis, realmente se cria um filho no sentido empregado quando se diz que um pintor cria uma obra de arte. Há o suporte e limitação que, para o pintor são impostos pela tela e pelas tintas e, sobre esses suportes e limitações, deve acontecer a criação. Criar um filho não é alimentá-lo, cuidar da saúde e prover a educação formal. Mesmo sob o risco de sermos interpretados de forma menos qualificada, é necessário repetir até a exaustão, que a tarefa de criar crianças é a tarefa mais importante da sociedade (e por isso, extremamente nobre) e deveria contar com todo o apoio do qual a sociedade organizada é capaz, porque dessa atividade é que surge a sociedade do amanhã, o que consequentemente influencia inclusive a sobrevivência da espécie. Não é necessário utilizar muita imaginação para supor como seria viver em uma sociedade na qual as pessoas só pensassem no curto prazo e estivessem dispostas a agir, sem medir conseqüências, na busca do prazer.
O conhecimento sobre o cérebro e o desenvolvimento infantil evoluiu muito enquanto se consolidavam as mudanças sociais provocadas pelo movimento feminista. Sabemos que o cérebro se desenvolve em paralelo com o desenvolvimento intelectual e emocional e um influencia o outro a cada movimento. Sabemos a importância dos estímulos que devem existir desde a vida intra-uterina. Já não há nenhuma dúvida que o desenvolvimento da criança se dá em cada segundo da relação que acontece entre esta e seus cuidadores. Sabemos que um cérebro potencialmente capaz de um alto desenvolvimento intelectual pode apresentar apenas um desempenho medíocre ou ainda, abaixo da média. Sabemos também que mesmo altamente informado, um indivíduo pode ser extremamente infeliz e ainda um veículo de infelicidade para outros. Principalmente conhecemos o quanto é necessário para o desenvolvimento saudável da criança, os vínculos afetivos e em função disso não há temeridade em afirmar que o que acontece com seus vínculos, acontece com a criança.
Nos casais com filhos, nos quais ambos trabalham fora, quem cria as crianças? As respostas óbvias, insatisfatórias e nunca ditas são: a empregada e a escola. Naturalmente a empregada cuida para que as crianças estejam bem vestidas e limpas, além de alimentadas. A escola cuida da informação e também de aspectos educacionais ligados à socialização e desenvolvimento de habilidades, entre outros.
Os pais que vivem nessas condições buscam justificar-se alegando a qualidade da relação, que substitui a quantidade; essa resposta também não é satisfatória já que sabemos que o desenvolvimento acontece a cada segundo. Na práxis entendemos que o custo financeiro da manutenção das crianças é alto e o equilíbrio desse orçamento exige a participação do casal. Isso naturalmente explica como se dão as coisas, mas não apresenta soluções para questões importantes:
- A hiperatividade, distúrbios de atenção e de aprendizagem e distúrbios emocionais de forma geral, parecem ter virado epidemia atualmente.
- Falhas graves de caráter também.
- As dificuldades emocionais pós-adolescentes parecem não ter precedentes na história.
- O individualismo atual tem sido discutido apenas como uma característica do momento social e não como resultado da formação dos indivíduos.
- A depressão emocional alcança proporções até agora inimagináveis.
- Os alarmantes índices de violência são freqüentemente atribuídos a fatores econômicos quase que exclusivamente.
Parece que não queremos ver a importância da afetividade no desenvolvimento humano e também do desenvolvimento da capacidade de estabelecimento de vínculos positivos. Não nos apercebemos que a criança cuidada pela empregada e formada apenas pela escola, não teve oportunidade de sentir-se pertinens – segura e amparada por fazer parte de um todo maior (família) e isso tende a gerar um grande vazio na vida adulta, além de suscitar atitudes não construtivas para si mesma e também para o conjunto social.
Não somos conscientes de que a construção social bem como a qualidade da sociedade é definida pelo sentimento de ser parte e este surge com a convivência e qualidade dos vínculos com os cuidadores. Talvez pelo papel social, a mulher foi mais competente que o homem em desenvolver, nos filhos, a capacidade de estabelecer vínculos positivos. Essa competência parece que está sendo reduzida nas mulheres que integram o mercado de trabalho, já que os vínculos nessa esfera são muito específicos e, pela importância que tem a profissão, acontece como que a imposição desse tipo de vínculos às outras áreas da vida, como se fossem melhores e/ou os verdadeiros. Face à irreversível condição feminina de, como o homem, ir em busca do seu sustento, resta a pergunta: a sociedade está irremediavelmente fadada a criar pessoas que agirão de forma a atacá-la ou conseguiremos desenvolver um sistema social capaz de criar pessoas emocionalmente capazes de agir de forma socialmente construtiva?
Para restabelecermos a saúde social das pessoas e aperfeiçoarmos a saúde social, o primeiro passo é tomar conhecimento de que podemos criar pessoas saudáveis. Depois disso é necessário repensar papéis, talvez eliminando o vínculo genitora-cuidadora; a mulher tem o direito de não querer dar à luz bem como deve ter o poder de optar por não ser uma cuidadora. Talvez seja necessário eliminar esta fala que emprega o gênero feminino ao tratar da criação dos filhos. Finalmente, talvez seja necessário abandonar o arquétipo da mãe e admitir a possibilidade da mãe medíocre para que possamos inventar o cuidador competente. O papel antigo de babá parece estar um pouco aquém do exigido pela sociedade de hoje. Que tal uma nova profissão: mãe; atividade aberta a homens e mulheres?
Se a saúde social ainda está distante da maioria dos projetos individuais, a saúde emocional deve estar presente nos projetos de quem se propõe ter filhos.



September 4th, 2009 at 9:08 am
Thanks for article. Everytime like to read you.
Tania
September 5th, 2009 at 11:47 am
Hi, Not sure that this is true:), but thanks for a post.
Have a nice day
February 22nd, 2010 at 11:20 am
então o que o senhor propõe como solução para mães como eu que criam seus fulhos sozinhas e precisam trabalhar. se eu ficar em casa para cuidar do meu filho quem pagará nossas contas? vamos viver do que? só de afeto? gostaria que o senhor saisse da teoria e nos brindasse com questões práticas. grata.
February 22nd, 2010 at 11:47 am
Obrigado pelo comentário, pela indignação e pela coragem de expor a sua dor. Este não é um blog onde tratamos das questões políticas e sociais, apesar que este texto sarcástico ou mesmo cáustico faz sim uma crítica social e apresenta sugestões. Espero que a parte da “teoria” (?!) onde trato dos cuidados necessários, possa ter contribuído.
February 12th, 2011 at 8:16 am
[...] Tratei da questão da formação aqui, chamando a atenção para a necessidade de uma nova profissão: Formador (veja em “Mãe, mulher medíocre“). [...]