A Boa Escola

September 14th, 2009 by Carlos

Circula entre estudantes de Engenharia a piada que conta a história na qual um profissional foi contratado para, baseado no projeto de uma máquina que processava grãos de soja, elaborar um semelhante em escala menor. Entregue o projeto e construída a nova máquina, ela não funcionou e depois de longa análise descobriu-se que todo o projeto foi reduzido em escala e, portanto, como os grãos de soja utilizados em ambas as máquinas eram do mesmo tamanho, não eram processados adequadamente na máquina menor.

No campo social e especificamente no educacional vivemos uma situação semelhante sendo evidente alguns problemas como:

-         um grande número de crianças com problemas de aprendizagem.

-         um grande número de alunos (principalmente das escolas públicas) que apesar de estarem na terceira ou quarta série do ensino fundamental, não sabem ler!

-         um grande número de alunos apresentando dificuldades no comportamento social

-         atos de violência e vandalismo praticado por alunos

 

Há ainda outros indicadores sociais que vez ou outra são citados como resultado da ineficiência do ensino ou, de forma mais ampla, da “formação” do indivíduo:

-         os altíssimos e assustadores índices de violência

-         a “qualidade” dessa violência, classificadas como animalescas (filhos que contratam a morte dos pais, arrasto de crianças presas a automóveis, jovens mães que atiram seus filhos em córregos, logo após o nascimento)

-         a origem da violência na classe média (ateamento de fogo a indigentes, violência contra trabalhadores em pontos de ônibus, sem contar os crimes de morte intra-familiares).

 

É indiscutível que a formação do indivíduo, segundo os indicadores sociais, não está sendo minimamente satisfatória porém estamos errando nas soluções propostas da mesma forma que erraram ao projetar a máquina de processamento de soja da piada acima. A diferença é que os grãos de soja – as crianças no nosso caso – é que mudaram. As crianças que vêm para a escola hoje não são as mesmas do século passado. A criança até os anos sessenta ou setenta tinham nos pais os únicos educadores até os sete anos de idade. Exceto por questões específicas, incorporavam uma matriz de relação saudável e, por isso, acreditavam na escola como um veículo que as levariam a atingir seus objetivos; os professores eram seus amigos e frequentemente seus ídolos; a escola representava uma conquista na sua expansão social. Além disso através da micro sociedade que chamamos “família”, a criança internalizava uma série de valores que eram expandidos para a sociedade ampla: havia a busca do “bem” e uma mais clara distinção entre o ”certo” e o “errado”; sabia que haveria punição para comportamentos inadequados porque era assim que acontecia em casa (internalizava algum sentido de justiça e ampliava sua capacidade de julgamento). Para os pais estava claro e eles esperavam isso, que a criança continuaria a receber, na escola, indicadores que a auxiliaram a desenvolver essa capacidade de julgamento inclusive quanto aos valores (sabemos que a capacidade de julgamento deve ser desenvolvida e aperfeiçoada até os 18/20 anos).

A família do século XXI é outra. Mesmo os pais mais dedicados, sempre que ambos buscam o desenvolvimento profissional e se responsabilizam pelo orçamento doméstico, surge a impossibilidade física (não presença), para oferecer essa formação às crianças. O resultado é que no campo afetivo a criança de hoje desenvolve uma matriz de relação no mínimo duvidosa e isso aparece de imediato nos problemas de relacionamento na escola, faz crescer exponencialmente os diagnósticos de distúrbios de atenção, aprendizagem e afetivos além de, mais adiante, provocar o assustador número de pessoas com menos de 18 anos, medicadas com antidepressivos. Não estamos tratando, dessa forma, de problemas no ensino público mas sim do que acontece em todas as classes econômicas! Quando e como a criança deve ir para a “escolinha”? Quais os requisitos da “escolinha” ou da creche, para atender às necessidades básicas psico-emocionais da criança e oferecer a formação de uma matriz de relação saudável assim como o desenvolvimento saudável da sua capacidade de julgamento? Qual deve ser o processo e quais os critérios de adaptação à creche/escolinha? O que é preciso ser feito hoje, com a criança que acaba de nascer ou de um, dois ou três anos, para que ela não se torne alheada afetivamente aos 18 anos?

Nós que nascemos no século passado não conseguimos compreender como um adolescente com excelente formação escolar, mata seus avós ou encomenda a morte dos pais; como alguém, com os recursos financeiros da classe média, se torna assaltante de cargas em rodovias! Estamos atônitos e, da mesma forma que o engenheiro que errou no projeto da máquina de soja, estamos errando ao discutir os problemas da máquina escolar: discutimos o construtivismo, a propriedade ou não da progressão automática, incluímos valores “modernos” como a igualdade de direitos e mesmo incluímos uma discussão sobre o modelo econômico sob o qual vivemos, no curriculum escolar de crianças de dois e três anos de idade!

É preciso admitir que não só erros estão sendo cometidos, algumas escolas estão despertando para a formação emocional das crianças e promovendo, ainda tímidas, algumas mudanças no seu processo de formação de adultos saudáveis. Essa timidez não se deve à incompetência das escolas mas também à inconsciência dos pais quanto às necessidades de seus filhos, que hoje vão muito além do ultrapassado “conteúdo” programático, isto é: informação.

A família mudou muito e a existente no século XXI guarda raras semelhanças com aquela do século passado. No novo modelo ela deixou de suprir muitas das demandas de formação como, por exemplo, já não tem os componentes necessários para ser uma micro-representação da sociedade. Dessa forma as crianças precisam incorporar esse modelo de sociedade numa próxima representação, que é a escola. A escola precisa ser vista, hoje, como provedora mais abrangente do que apenas o ensino de leitura e escrita, mas capaz de fornecer uma real formação. Escolas de vanguarda se mobilizam nessa direção porém cabe aos pais apoiar e cobrar das escolas particulares e dos governos esse urgente movimento.

(Publicado no Artigonal)

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