Mais uma vez… Pertinens
A revista Veja 2150 nas “páginas amarelas” trouxe uma entrevista com Jerome Kagan sobre o desenvolvimento infantil. Como tudo que aparece na Veja se torna “verdade” (macLuhan), vamos comentar alguns pontos que foram abordados:
1 – Ansiedade – De certa forma ele defende a ansiedade e apóia sua tese com argumentos insólitos como, por exemplo, que na nossa origem a hipervigilancia foi fator decisivo na luta contra os predadores. Diz também que as pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes.
No meu modo de ver se algo foi importante na luta de nossos ancestrais, contra seus predadores, não implica em que faça algum sentido hoje. Pessoas ansiosas podem ser sim responsáveis e conscientes, mas pessoas não ansiosas podem ser mais responsáveis e mais conscientes. Por outro lado pessoas ansiosas tendem a atropelar processos, contatos, respeito e inclusive ética, o que pode comprometer seus resultados.
O que ele não comentou explicitamente e podemos citar, é que a ansiedade pode ser um fator de sucesso em nossa sociedade (mais ainda na norte-americana), ao ser confundida com dinamismo. Sempre que dizemos que alguém é dinâmico, observe, pode estar presente a ansiedade, o desrespeito ao outro e, no limite, a ultrapassagem de barreiras éticas.
Em uma das últimas respostas ele parece se contradizer ao associar a ansiedade com um segundo aspecto negativo – a rejeição: “O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado...”.
2 – A cebola – Utilizei também o exemplo das camadas de uma cebola em meu livro “O Poder dos Pais…” para exemplificar o desenvolvimento humano. Na entrevista à Veja Jerome Kagan não é muito preciso ao afirmar que quando passamos de um estágio ao outro, parte do que ocorreu antes desaparece sem deixar vestígios.
Acho importante retificar: – O que importa fica registrado, seja bom ou não e, mais, uma marca ou cicatriz deixada em uma camada dessa “cebola”, vai moldar a camada seguinte e assim sucessivamente; isso quer dizer: uma nova camada não vem incólume e sim se adapta à conformação da anterior.
3 – Valorizar e não Amar – Kagan precisou enfatizar que ressaltou a importância de se valorizar a criança e isso não quer dizer amar. Não sei nesse ponto houve algum problema de tradução pois, na verdade, os norte-americanos utilizam mais a expressão who cares? e I don´t care dizendo que se importam ou não com algo/alguém. A criança precisa sim sentir que alguém se importa com ela, que é importante, que é pertinente a alguém. Eu freqüentemente uso a expressão ser reconhecida e sei que isso também deixa dúvidas. No livro “O Poder dos pais…” detalhei esse sentimento de Pertinens – sentir-se pertinente/ligado a alguém (e não sentir-se parte de alguém). Pertinens indica essa necessidade humana cujo atendimento é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável.
Porque frisar que isso não quer dizer amar? Pelo menos aqui, em nossa cultura, sentir-se pertinente implica em ser querido.
4 – Mãe = Pai. Ele não diz explicitamente, mas confronta a importância da mãe, igualando-a à importância do pai: “falamos da pele da mãe apenas porque o pai não amamenta”.
Pai e mãe são sim importantes, mas atuam em diferentes áreas. Mesmo que neste momento social os homens tenham uma atuação familiar um pouco maior, o mais freqüente é que, caso a mãe não seja eleita como adulto significativo para uma criança, a alternativa será a avó, uma tia, a babá, a “tia” da escolinha, ao invés do pai. Isso ocorre por um motivo bem simples: as mulheres ainda são muito mais competentes em falar a linguagem do bebê: o contato direto emoção-emoção.


